EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – DEMANDA SOCIAL E PERSPECTIVAS POLÍTICAS
Cristina Cardoso Schwinn
S E, R S
Durante
muito tempo a Educação Profissional foi vista como um meio de formar
mão-de-obra para o mercado de trabalho. A própria concepção de trabalho
requeria uma especialização voltada para a produção, como o modelo fordista. A
Educação Profissional não incluía a formação geral, tão pouco considerava o
sujeito como ser social, agente de transformações ou cidadão. A
profissionalização era dirigida ao mercado de trabalho e foi até dominada por
este, que ditava ou exigia determinados tipos de formação.
Atualmente
uma outra discussão está sendo feita, relacionada à crise de paradigmas na
Educação. Fala-se cada vez mais que é necessário romper com antigas concepções
e estruturar outras, de acordo com as novas necessidades de formação
profissional. A concepção de Política Pública de Educação Profissional do
Governo do Estado do Rio Grande do Sul propõe uma mudança de paradigmas
enquanto ela não está interessada somente na formação para o mercado de
trabalho, mas sim na formação comprometida com a ética pessoal/social e
profissional dos educandos quando inseridos no meio social e no mundo do
trabalho.
Essa nova concepção rompe com a tradição de profissionalização no
momento em que nega o mercado de trabalho como norteador principal das suas
ações. A princípio esta afirmação pode parecer um tanto ultrajante, mas troquemos
os conceitos de mercado para mundo do trabalho. Com isso ampliamos horizontes e
passamos a considerar a Educação Profissional de um forma integral, não
compartimentada e tecnicamente especializada. O mundo do trabalho comporta não
somente os saberes técnicos de uma profissão ou apenas os postos de trabalho,
mas também a relação complexa do ser social com o trabalho. Portanto, a
formação deve estar de acordo com o mundo do trabalho e não apenas a favor do
mercado.
No
entanto, o estudo do mercado é relevante e deve ser considerado de extrema
utilidade para que os investimentos em Educação Profissional não sejam feitos
em uma área na qual o mercado esteja saturado, ou seja, não se pode formar
profissionais para o desemprego ou o sub-emprego, é preciso estar atento também
às necessidades sócio-culturais.
Dessa
forma, o Estado do Rio Grande do Sul rompe com os paradigmas já existentes e
lança para discussão conjunta com a comunidade escolar outros referenciais que
consolidem uma Política Pública de Educação Profissional. Esta Política entende
que a Educação Profissional deve estar articulada com a Educação Básica,
baseada numa formação científica, tecnológica e humanista, e em seu processo
deve atender para o desenvolvimento do exercício da cidadania, do trabalho não
alienado e da participação dos processos decisórios. Estes referenciais,
podemos dizes que são as diretrizes para a Educação Profissional no Estado e
que as escolas devem partir destes princípios norteadores para construir a
proposta dos cursos técnicos.
Mas quem
mais tem responsabilidade para que este projeto dê certo, além dos agentes da
educação? Os próprios sujeitos que já fazem parte da estrutura do mundo do
trabalho, para que possam dialogar com os novos profissionais que estão
recebendo e formados a partir de uma política pública que inclui a discussão do
desenvolvimento e da sustentabilidade.
É preciso
acrescentar que a idéia de inclusão do ser social como aspecto fundamental na
educação não é nova, tão pouco é nova a necessidade de superar os conhecimentos
meramente especializados. Já alertava Edgar Morin para a importância do
desenvolvimento e plena utilização da inteligência geral para resolver
problemas especiais, ou seja, o sujeito com conhecimentos mais gerais e
complexos terá mais facilidade em lidar com situações mais específicas. A
possibilidade de relação entre dados gerais dá maior segurança a quem necessita
desenvolver atividades específicas. Dessa forma, a Educação Profissional não
deve atuar de forma unilateral com órgãos educacionais. É necessário uma
interação entre diferentes setores ligados à educação, trabalho,
desenvolvimento e tecnologia.
Neste
ponto é importante explicitar o que esta política entende por desenvolvimento,
para tanto, vamos a um exemplo: um Estado tem opções de investimentos para o
desenvolvimento - poderia optar em sustentar uma escola que forme mão-de-obra
(pouca e por um período curto) para as montadoras automobilísticas que se
fixaram em determinada região e com isso reforçar as práticas da velha
estrutura capitalista, ou optar por
investir na qualificação e requalificação dos profissionais dos setores
básicos, neste caso a agricultura, pecuária, produção calçadista,
agroindústria, entre outros. A segunda opção foi a escolhida para dar
continuidade ao processo de desenvolvimento.
A EMATER em conjunto com a Secretaria de
Agricultura e Abastecimento do Estado do Rio Grande do Sul toma frente de um
programa de apoio à agricultura familiar por entender que esta é "uma ação
que possibilita aos agricultores e às agricultoras a agregação de valor ao seu
produto"[i], salientando
"que todos os programas e ações governamentais de desenvolvimento da
agricultura familiar estão vinculados e articulados com programas de formação
dos agricultores sob o enfoque da cidadania e da qualificação técnica e
profissional."[ii]
Assim está
estruturada uma outra concepção de Educação profissional, a partir da qual
"o estado deve, face às mudanças econômicas, tecnológicas e sociais,
ofertar oportunidades de qualificação, requalificação e educação profissional
para os trabalhadores, e construir" (...) "uma Política Pública de
Educação Profissional articulada com outras políticas públicas de trabalho, de
renda, de emprego, de desenvolvimento sustentável e cidadania ativa."[iii]
Também é
necessário ressignificar o conceito de tecnologia, não só como ciência
aplicada, mas também como discurso. Ela permite a utilização da criatividade e
do questionamento, aliás, estes fatores devem estar aplicados à criação de novas tecnologias a partir da
mudança de paradigmas. Uma série de questionamentos deverão ser feitos no
processo criação, tais como: que tipo de tecnologia utilizamos? Ela é útil e
funcional? As tecnologias já existentes são aplicáveis de forma proveitosa à
nossa concepção de Educação Profissional? Como criar novas tecnologias que
atendam as nossas necessidades? Como tornar viável a aplicação dessas
tecnologias? A serviço de quem estão essas tecnologias?
A questão
da tecnologia está intimamente ligada ao desenvolvimento. Os profissionais que
estão sendo formados não devem apenas estar treinados para utilizar
determinadas tecnologias, mas também de pensar sobre elas e até de
reinventá-las se preciso for, tanto na dimensão da criação, quanto na da
utilização.
No campo
teórico, este é um excelente programa. Mas como tudo isso está acontecendo na
prática? Quais os principais problemas existentes, quais as resistências
encontradas na aplicação e na propagação de uma nova concepção de educação?
Estes, são questionamentos sérios e demandariam um estudo aprofundado, que de
certa forma já vem sendo pesquisado e debatido por muitos estudiosos sobre
educação e trabalho. No entanto, podemos apontar alguns itens que não são
detectados tão facilmente por quem faz uma pesquisa sem avaliar um breve
histórico do processo de construção desta nova concepção ou de movimentos
político-partidários na formação dos grupos que coordenam e levam adiante o
projeto frente às escolas.
Em 1998 o
Ministério da Educação separou o ensino técnico do ensino médio, propiciando
que os cursos técnicos ficassem ainda mais especializados, dando vazão para que
a Educação Profissional continuasse no modelo conivente e subserviente ao
mercado de trabalho. Foi necessário todo um esforço em sentido contrário,
adequando toda a proposta de Política Pública de Educação Profissional no
Estado do Rio Grande do Sul à legislação do Conselho Nacional de Educação, que
foi toda reformulada em 1999, revogando as antigas bases de 1972.
Justamente
em 1999 houve a mudança de partido político no governo do estado. A partir
desta, tomou forma a mudança da
concepção de Educação Profissional. A mudança de partido gerou em algumas
regiões um conflito meramente político, que acabou retardando e dificultando o
acesso e a devida formação e informação das escolas para a adequação dos seus
cursos técnicos.
Verifica-se
em algumas localidades a resistência à mudança, ou ao menos à discussão sobre
um novo paradigma para a Educação Profissional. Às vezes, torna-se visível a
“má vontade” em colaborar com a melhoria da qualidade educacional e
profissional. Trata-se, portanto, mais de um problema ético do que outros.
Uma outra
preocupação é em saber como a escola está trabalhando esta nova concepção, ou
seja, as novas diretrizes para uma formação técnica engajada com a formação pessoal e social está realmente sendo
implantada nas escolas? Em alguns casos as escolas reformulam o plano de curso
dos cursos técnicos, para atender à nova legislação, mas na prática as aulas continuam as mesmas, das mesmas formas,
até mesmo a organização curricular está apenas “maquiada” para um novo modelo.
É preciso
avaliar, portanto, os motivos destes acontecimentos. Um deles, além daqueles
políticos, é a falta de segurança dos professores em trabalhar de uma forma
diferente, com um novo tipo de concepção de trabalho, educação e formação
profissional.
Outro
fator preponderante nas dificuldades enfrentadas é o fato de muitos professores
dos cursos técnicos serem, também, profissionais liberais, o acontece mais nos
cursos da área de gestão e informática. Isto é, são professores mas sem
formação para desempenho de tal atividade. São bacharéis, nunca estudaram sobre
didática ou sobre educação-aprendizagem
em si. Entretanto, o que mais preocupa é que estes professores, por serem
também profissionais liberais, muitas vezes atuam a favor de uma lógica a qual
já estão acostumados há muito tempo, que é a lógica do mercado, competitivo e
tecnicista.
Nesta
situação não há culpados ou vítimas, estamos longe de uma discussão de
culpabilidade, mas é preciso destacar que o problema existe e discuti-lo, para
daí organizar um plano de ação que torna possível a completa implantação do
projeto. Utopia? Talvez. Mas no mínimo é necessário compreender que os
problemas não provém somente de drásticas mudanças, mas também do ser
individual e da sua bagagem histórico-política.
É
importante destacar o papel dos Conselhos Profissionais, ou seja, a relação
entre estes e a regulamentação da profissão com a legislação educacional.
Quando da formulação desta última, aquela regulamentação foi considerada?
Atualmente os Conselhos Federais de Radiologia e Contabilidade acreditam que
não. O primeiro reivindica mudanças no tempo de duração do curso técnico de
radiologia, estabelecido na Resolução CNE nº04/99, enquanto o segundo quer acabar
com o curso de contabilidade de nível técnico. Ambos possuem argumentos
baseados em artigos da regulamentação das respectivas profissões.
Então quem
deve bancar essa discussão destas problemáticas? Quem deve tomar frente e
discutir isso com a comunidade interessada? O que tem sido feito neste sentido?
De quem deve ser a iniciativa de informar, e em último caso, é interessante
informar? Todos esses questionamentos devem ser considerados e a partir deles é
possível pensar numa proposta de atuação.
Constatamos
que é preciso trabalhar mais diretamente com as escolas. Como?
Os
professores dos cursos técnicos demandam formação. Estão sendo atendidos?
O Estado
dispõe de verbas para tal formação?
Afinal, o
que podemos sugerir para superar este distanciamento entre gestores, agentes e sujeitos? Uma possível solução é a
aproximação mais direta da Secretaria da Educação com as escolas. A relação
mais estreita poderá detectar as demandas tanto de professores quanto da
comunidade. Para que isso aconteça será preciso redimensionar a organização
hierárquica que determina que o contato com as escolas deve ser feito via
Coordenadoria Regional de Educação. E essa será uma decisão
política-administrativa, mas com conseqüências desastrosas se não forem
observadas certas regras de boas maneiras. Essa tensão política, mais do que um
propulsor para as mudanças necessárias, está funcionando como uma mina para a aplicação de forma integral da
Política Pública de Educação Profissional, além de acarretar em um trabalho
demasiadamente pesado e concentrado nas mãos de apenas um centro de gestão
política.
Portanto,
mais do que uma demanda social a Educação Profissional se constitui num
elemento de estruturação importante para o desenvolvimento social, econômico,
tecnológico e político, partindo da premissa de que deve formar além de
profissionais competentes, cidadãos críticos. Assim, Educação Profissional é
uma das Políticas Públicas da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do
Sul, conquistada a partir de uma discussão séria e necessária na área
educacional.
[i] _______Estratégia de Desenvolvimento Econômico. Governo do Estado do Rio Grande do Sul.2000. (p.35)
[ii] _______Estratégia de Desenvolvimento Econômico. Governo do Estado do Rio Grande do Sul.2000. (p.36)
[iii] GRABOWSKI, Gabriel. Educação Profissional: Desenvolvimento Sustentável, Trabalho e Cidadania. In Anais do 2º Encontro Estadual das Escolas Técnicas, 2001. (p.09)
BIBLIOGRAFIA
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários
à educação do futuro.Brasília, Unesco:2000.
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?:
ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas,
Editora da Universidade Estadual de Campinas:1999.
NEVES, Lúcia Maria Vanderlei. Brasil ano 2000. Uma nova divisão de trabalho na educação. São Paulo, Xamã:2000.
corredordelasideas@hum.unrc.edu.ar